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Covid-19: Paciente relata combate de 37 dias e revela: “Não fossem os técnicos de saúde já cá não estava”

Mindelo, 15 Fev (Inforpress) – Depois de 37 dias entre o Centro de Estágio, o hospital e em casa a debelar a covid-19, António Pelópidas dos Santos resolveu dar a cara e contar uma experiência que não deseja ao pior inimigo.
Para início de conversa, o homem de quem se fala nesta entrevista, conhecido nos Estados Unidos, onde reside há 32 anos, e em São Vicente como Tony, pede licença para uma revelação: “Não fossem os cuidados que tive no Centro de Estágio e no Hospital Baptista de Sousa, certamente já cá não estava, de certeza absoluta”.
Mas esta história de superação tem um início, no dia 31 de Dezembro, quando, em véspera de regressar aos Estados Unidos, viagem prevista para o dia 03 de Janeiro, após passar o Natal e fim do ano com a família em São Vicente, o que faz todos os ano, Tony foi fazer o agora indispensável teste para viajantes.
Chegou a São Vicente no dia 14 de Dezembro mas, em finais do mês, começaram, para ele, os habituais sintomas de uma alergia à poeira.
“Todos os anos quando venho a São Vicente tenho uma alergia garantida a poeira, desta vez não foi excepção, e se houver bruma seca é mais forte ainda,”, contou à Inforpress, mas longe dele a hipótese covid-19.
Hoje dá “graças a Deus” a “obrigação” de se fazer testes antes de viagens internacionais, porque foi assim que a 02 de Janeiro recebeu a resposta do teste que deu positivo para Sars-Cov-2.
A partir daqui tudo muda, logo na noite de 02 de Janeiro ocorre a transferência do paciente para o isolamento no Centro de Estágio, onde os primeiros quatro dias de internamente “foram tranquilos”, contou.
“A minha intenção era ficar em isolamento num apartamento, mas tive receio devido aos sintomas que mencionei, mais a tosse que surgiu a seguir, a família também concordou e decidi solicitar transferência para o isolamento público no Centro de Estágio, e felizmente que assim foi”, contou com os olhos arregalados.
Mas, ao quinto dia, foi levado ao banco de urgências do Hospital Baptista de Sousa, o que, declarou, foi a sua salvação, já que a partir desse dia começou a ter “problemas sérios de respiração”.
“Ali no internamento do hospital é que passei os piores momentos, e para teres uma ideia dava dois passos, literalmente, e ficava cansado, mas uma canseira impressionante”, contou Tony, que disse ter ali passado os mais duros 15 dias da sua vida, embora os três últimos tenham sido de “algum alívio”.
Foram, contas feitas, 12 dias a receber oxigénio e outros tratamentos, e quando recebeu alta, no dia 22 de Janeiro, tinha perdido 12 quilogramas nesse poucos dias, mas tendo, mesmo assim, um novo tratamento pela frente, agora mais duas semanas de fisioterapia respiratória.
Em fase final da recuperação da covid-19, Tony sobe o tom de voz para dar os parabéns à Delegacia de Saúde de São Vicente, pelo tratamento que lhe foi dispensado no Centro de Estágio, em “condições cinco estrelas”, se se atender à realidade do País, reforçou.
“Vivo nos EUA e às vezes há tendência para comparações, mas acho que aqui a comparação não é possível, pois para a realidade de Cabo Verde foi excelente em todos os aspectos, acomodação, alimentação, atendimento com enfermeira constantemente a passar pelos quartos a monitorizar a situação dos pacientes”, relatou.
Para o Hospital Baptista Sousa também vai agradecimentos, pois foi ali que passou maior número de dias e, enumera, dos ajudantes de serviços gerais até ao médico “foi simplesmente incrível”, desde condições de higiene, atenção, o calor humano, a alimentação, a atenção dispensada aos pacientes, a confiança e o encorajamento que é transmitido, “tudo cinco estrelas”.
Sem data para regressar aos Estados Unidos, onde trabalha com declaração de impostos, que principia no mês de Janeiro e termina a 15 de Abril, Tony diz que o “prejuízo financeiro é enorme”.
“Mas a vida é o valor supremo e se me dissessem hoje que não mais poderia trabalhar desde que ficasse vivo, dizia ok, sem problemas”, referiu, ao mesmo tempo que explicou que deu a cara nesta entrevista como um sinal para chamar as pessoas à realidade, baseado naquilo que aconteceu consigo.
“O que me salvou também é que nunca fui fumador, caso contrário, disse-me o médico, já não conseguiria recuperar, então, peço a todos para se cuidarem ao máximo, tomem a covid-19 a sério, pois a doença ainda está no começo e o risco nunca é zero”, finalizou, ele que se considera uma pessoa habituada ao exercício físico diário, que se cuida e que toma vitaminas “como uma religião”.
“Acho que isto também me safou, porque uma pessoa com uma constituição fraca não sei se suportava aquilo por que passei”, sintetizou Tony, que diz ter hoje uma ideia diferente da doença, “senti-a na pele”, e “muita esperança” na vacina contra a covid-19.
Os dados do mais recente boletim epidemiológico do Ministério da Saúde referente às amostras analisadas no sábado, 13, e divulgadas na tarde de domingo, 14, assinalam que a ilha de São Vicente registou 18 novas infecções em 104 amostras.
A ilha registou ainda 15 recuperados, e passa ter agora 68 casos activos da doença.
AA/DR
Inforpress/Fim